O pretérito imperfeito do retrô branding

Você sabe o que é retro branding ou “o negócio da nostalgia”? O relançamento de produtos, adaptados ao contemporâneo ou não, são sacadas de marketing e branding rentáveis, mas, não, novidade. Acontece que o cenário, agora, é bastante favorável para a prática dessa estratégia da indústria da saudade. Principalmente quando direcionada aos millennials (ou geração Y), nascidos entre as décadas de 1980 e o fim de 1990.

Algumas características fazem da geração Y um filão para o comércio da lembrança afetiva nesse efeito randômico de pretérito imperfeito. Os jovens adultos são peças ativas no mercado de trabalho e têm poder aquisitivo para pagar pelos souvenires de uma infância perdida.

Outro ponto é o fato de terem crescido num período em que a informação chegava pelo rádio, TV,  impressos. O conhecimento não pairava em um universo conectado de infinitas possibilidades. Em uma esfera mais limitada, os jovens acabavam consumindo os mesmos conteúdos e bebendo das mesmas fontes.

Ainda, à época, a relação que se criava com esses ídolos era infinitamente maior do que a que criamos com as personalidades e produtos atuais – mais voláteis e efêmeros em virtude da tecnologia, conectividade e globalização.

Os jovens comungavam em torno de ídolos mais ou menos soberanos, o que fazia com que esses personagens, símbolos, produtos ou personalidades tivessem hordas de fãs, que passavam momentos maravilhosos compartilhando essas experiências devocionais com seus pares.

Com o passar do tempo, a realidade: os jovens cresceram rumo a um mundo cruel, inóspito, cheio de responsabilidades e que não enxerga todo o potencial daquele lindo floquinho de neve.

Desiludidas, essas pessoas ficaram órfãs de seus ídolos e símbolos, viraram adultos (ou deveriam ter virado, pesquisar sobre adulting rs) e repletos daquele sentimento “Ah, que saudade eu tenho da aurora da minha vida. Da infância perdida, que os anos não trazem mais”. Casemiro de Abreu recita e Freud explica.

Retrô branding em todos os segmentos da indústria

Entre vinis, vitrolas, fliperamas de recente tecnologia, mas com visual todo trabalhado no antiguinho, tênis, brinquedos e videogames… O fenômeno do comércio da nostalgia se alastra por todos os segmentos da indústria. E, claro, não se restringe aos millennials, afinal quem não delira com uma boa velharia dos tempos de outrora? Lucrar em cima dos fandom (em inglês: fan + kingdom) é igualmente fácil quando pensamos em retrô marketing.

Na indústria cinematográfica, por exemplo, Star Wars nos leva, a cada ano, em novas histórias que nem mais pertencem à saga principal.

Mary Poppins nos visitou repaginada em 2019, fazendo você falar “supercalifragilisticexpial” de novo. A lista é enorme…

Até mesmo a Netflix apresentou sua versãozinha retrô com Stranger Things.

A Marvel também, com o filme Capitã Marvel.

No Brasil, em 2019, a Rede Globo lançou uma novela TODINHA passada na década de 1990 (ME-DO), a Verão 90.

O revival da dupla Sandy & Júnior também é um exemplo e deu ainda mais ênfase no conceito por aqui.

Mas por que gostamos tanto de coisas de outrora? Sobre saudosismo, natureza humana e strorytelling (ou a velha e boa contação de histórias)

O sucesso desses produtos e modas relançados está relacionado intimamente a aspectos psicológicos e da natureza humana. Quer ver?

Eles têm base em conceitos como reavivamento, ou seja, ressuscitar algo magicamente que já se foi, e em ideias de culto a ídolos e ícones. Ademais, compartilhar a idolatria  é mais um desses das vivências humanas. Somos seres relacionais, estamos sempre em busca de nos identificar com nossos pares e nos reunir em grupos com afinidades, não é mesmo?

A ideia de utopia é, ainda, uma viagem bastante recorrente de nossas experiências: Ah, como o mundo era bom. Ahhhh, como o mundo pode ser melhor com essa coisa mágica que me fez tão feliz.

Me deparei com essas reflexões mais profundas ao encontrar um artigo interessante durante as minhas pesquisas. Robert V. Kozinets resumiu algumas ideias próprias e de seus colegas sobre o tema aqui.

No fim das contas, concluí que essa coisa, como quase todas as nossas experiências, também é sobre strorytelling, que, cá para nós, nada mais é do que a boa arte de contação de história, ressuscitada numa roupagem retrô moderninha, um case de retrô brandig… Bom, mas isso é outra história. Até a próxima postagem!

Foto que ilustra a postagem: Mike Meyers – Unsplash