Construção, memórias de família no Brasil e em Cuba

Nota do Blog: Esta matéria foi publicada originalmente na Revista KIDSin, no ano de 2012.

Documentário de Carolina Sá sobre família, amor, encontros, desencontros, pátria e pertencimento é rodado a partir de visita de sua filha pequena a Cuba e memórias em super-8 e fitas cassetes, registradas pelo pai da diretora entre as décadas de 1960 e 1970.

El Malecon, tradicional orla de Havana, Cuba

O ponto de encontro para o bate-papo foi em um café no bairro de Botafogo, na capital carioca. Lugar de fácil acesso, pois Carolina Sá está grávida de oito meses de seu segundo filho, Fênix. Mas bem que poderia ter sido em Cuba, país onde se passa parte do documentário Construção, dirigido por ela, e que leva para as telas sentimentos, conceitos e “invenções” de todos nós – e do que somos, com imagens belíssimas. O filme fala sobre “amor, pertencimento, separação, maternidade, pátria, essas coisas que têm a ver com todo mundo”, nas palavras da própria autora, por meio de memórias do pai de Carolina, o arquiteto-compositor-boêmio Marcos de Vasconcellos, cartas – trocadas entre os pais, entre ela e a mãe e entre ela e o marido -, e da visita de Branca, filha de Carolina com o músico cubano René Ferrer, a Havana, Cuba, em 2008, ocasião dos 50 anos da Revolução Cubana.

 Construção começou a partir da vontade de Carolina de registrar a primeira ida da filha ao país do pai, aos três anos, quando ela acreditava ser a melhor época para rodar o material. Isso porque, nessa fase, as crianças costumam ser menos influenciadas por ideias do meio externo, o que tornaria a experiência mais genuína. A mãe teve de, literalmente, correr para dar conta do que era necessário providenciar (decisões práticas de uma viagem com crianças e tarefas para a produção do documentário) quando o martelo para a viagem foi batido: 

– Foi tudo corrido, meio desesperado. Eu nem tive muito tempo para explicar e conversar com a Branca a respeito da viagem e do que íamos fazer. 

Branca, pai e mãe desembarcam em Cuba às vésperas do Ano Novo e, a partir daí, a menina começa a desbravar a terra natal do pai, a cultura, a família, a descobrir suas origens. Ainda que na época Branca fosse uma menina bem pequena, sem muitas travas impostas pelo convívio sociocultural, um pouco de impacto foi inevitável: 

– Cuba é um país diferente, com menos recursos do que o Brasil. Logo que chegamos, Branca sentiu diferença no que diz respeito ao conforto. O país tem uma realidade diferente e ficamos hospedados no apartamento da avó da minha filha, sem luxos e bastante modesto. Senti que Branca ficou incomodada com a falta de conforto em certos momentos.

Havana, Cuba. Foto divulgação de “Construção”

Mas, o mesmo lugar que causou estranheza em Branca também causou encontro. “Acho que estar em Cuba, em contato com a cultura e com a outra parte da família dela, a fez entender melhor que ela é fruto de duas ‘coisas’ totalmente diferentes e, por conta disso, absorver melhor as próprias diferenças. Acredito que lá ela teve a oportunidade de se enxergar e se reconhecer um pouco naquela cultura que é parte dela”, comenta Carolina. 

Branca e a mãe passearam por Cuba, ora acompanhadas do pai, de quem, aliás é a trilha sonora do filme, ora apenas as duas e um cinegrafista, que colaborou com Carolina ao longo da viagem. Todas as imagens foram feitas com a presença de uma menina muito pouco ligada na câmera ou interessada no que aqueles adultos estavam fazendo. “Isso foi uma das coisas interessantes em escolher essa idade para rodar o filme. Se Branca fosse maior, perderia um pouco da naturalidade e o que queria era essa coisa bem crua das descobertas dela”, complementa a mãe-diretora. 

Passeios na fortaleza El Morro e na sorveteria mais popular de Havana, o Copellia, fizeram parte do roteiro. No Copellia, aliás, se espera quase uma hora para tomar um sorvete – há um quiosque ao lado que vende os mesmos a um dólar, para turistas. Mas o programa cubano é ficar na fila e esperar até conseguir entrar e encontrar os sorvetes a preços mais acessíveis à população. E, como, estando em Roma, é melhor que se faça como os romanos, lá ficaram mãe e filha à espera da vez para entrar na sorveteria. 

Com a bagagem cheia dos registros de Branca e suas origens, havia ainda o material herdado do pai, Marcos de Vasconcellos. Foi então que, em uma conversa com Walter Salles, o diretor, que é produtor-associado do filme, chamou a atenção de Carolina para o fato de os dois materiais serem o mesmo filme, a mesma história. “Há alguns anos, eu tentei produzir um documentário com as memórias do meu pai. O projeto não decolou e eu desisti. Mas essa busca pelo meu pai, já antiga na minha vida, seguia comigo. Quando voltei de Cuba com as imagens da Branca, o Walter Salles, que é meu amigo e conheceu meu pai na adolescência, falou ‘Esses dois filmes são o mesmo filme’. Neste momento nasceu o Construção”, relembra Carolina.

Carolina e o pai. Foto de divulgação

Assim como as imagens em Cuba, cheias de emoção, os registros do pai de Carolina são intensos de sentimentos, família, encontros e desencontros. A leitura das cartas, que se contrapõem com a visita de Branca a Cuba, imagens em Super-8 e gravações em fita cassete feitas pelo próprio Marcos, comovem. Cartas trocadas entre os pais da cineasta, entre ela e a mãe e ela e o marido fazem o espectador encontrar reconhecimento. Nos escritos são relatadas, pelas palavras daqueles protagonistas, histórias que poderiam ser de qualquer um ou qualquer família. Mas que, naquele momento, representam a história de Branca, René, Carolina, seus pais e seus irmãos.

A produção demorou mais de quatro anos para ser finalizada. Nesse tempo, Branca cresceu e já não é mais aquela garotinha que tratava a câmera com uma indiferente naturalidade. Ela agora tem sete anos e participou como espectadora da estreia do documentário no último Festival de Cinema de São Paulo.

A menina se viu na tela. Aliás, a família toda de Carolina assistiu à exibição. “Todo mundo perguntava para Branca o que tinha achado e ela só respondia ‘Não sei’. Depois, comigo, comentou ‘Como o seu pai era engraçado!’”, relata Carolina. Coisa de criança essa espontaneidade, não é?

Agora, crescidinha e compreendendo um pouco mais a respeito do trabalho que a mãe fez em “Construção”, Branca pergunta a toda hora quando vai acontecer a estreia do filme nos cinemas e se os amiguinhos poderão assistir. Carolina garante à filha que vai fechar uma seção para ela e seus pequenos convidados, regada a muita pipoca. 

Além de Walter Salles como produtor-associado, o filme conta com Patricia Pillar, na mesma função. Construção ainda não tem previsão para entrar em circuito comercial, mas você pode conferir trechos, comentários e novidades no site construcaoofilme.com.br e aguardar ansiosamente pela estreia.